Cursos Gratuitos na UniverSUS


Se você é, ou pretende ser, um profissional da área de saúde, principalmente se lida no dia a dia com os sistemas desenvolvidos pelo DataSUS, precisa conhecer o UniverSUS, um programa amparado pelo DataSUS e Ministério da Saúde que capacita os servidores da saúde à distância. Os cursos são sempre focados no ambiente do Sistema Único de Saúde (SUS). Você ainda pode compartilhar trabalhos e idéias através de um ambiente colaborativo. Aproveite a dica! 
Os cursos grátis do Ministério da Saúde estão atraindo a atenção de vários profissionais formados que ainda não conseguiram um cargo efetivo e precisam de alguma especialização. Quem organiza as inscrições para o curso é a UniverSus, empresa ligada à saúde. Você encontra dezenas de cursos gratuitos no UniverSUS. A palavra “gratuito” hoje em dia é muito bem vinda, devido aos altos custos do dia-a-dia, principalmente para os profissionais ligados à saúde. Até 2011 o Ministério da Saúde prevê qualificar mais de 50 mil profissionais na área da saúde da família.
 
Os cursos são das mais variadas especialidades - Bolsa Família na Saúde, Programa de Volta para Casa, Gestão do SUS, Programa Saúde da Família, entre outos - e voltados para todos os profissionais da área da saúde. Os cursos abertos e as inscrições podem ser acompanhadas através do site  da UniverSUS.

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Barbacena: cidade dos loucos (Parte 2)

Em seu auge o hospital chegou a abrigar cerca de 5.000 moradores, os quais chegavam de todos os cantos do Brasil, apinhados em um trem que parava na frente dos pavilhões. Esse sinistro e terrível veículo ficou conhecido como “Trem de Doido”. 

Do hospital, a maioria das pessoas não saía nunca mais. Muitos chegavam crianças e nunca mais viam suas famílias. Para lá, eram enviados meninos considerados pelos pais e professores como desobedientes; moças que, para a desgraça familiar, tinham perdido a virgindade ou que engravidavam sem estarem casadas; presos políticos e toda a sorte de “indesejáveis” na sociedade, dentre os quais também os sifilíticos e os tuberculosos.

Os internos viviam no hospital em estado de absoluto abandono. Perambulavam pelos pavilhões nus e descalços e eram forçados a comer comida crua, servida em cochos e sem talheres. 

Para acomodar tanta gente nas instalações do hospital, as camas eram retiradas e feno era espalhado pelo chão. Tal estratégia chegou até mesmo a ser recomendada como medida em outros hospitais psiquiátricos da região. As pessoas dormiam todas juntas, amontoadas no piso do quarto sobre o feno. Conviviam com ratos, que lhes mordiam, com suas próprias fezes e urina e morriam às dezenas de diarréia, desnutrição, desidratação e de tantas outras doenças oportunistas. Estima-se que cerca de 60 mil pessoas morreram nesse hospital. Eram 60 óbitos por semana, 700 por ano. 

Vários ex-internos se referem a um chá que era freqüentemente servido por volta da meia-noite e “estranhamente”, no dia seguinte, muitos amanheciam mortos e eram empilhados nos corredores e pátios do hospital.

Fonte: Centro Cultural da Saúde

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Barbacena: cidade dos loucos (Parte 1)

Barbacena situa-se na Serra da Mantiqueira, a 169 km da capital mineira e conta hoje cerca de 124.600 habitantes.

Esse município de clima ameno de montanha, com temperaturas médias baixas para os padrões brasileiros, recebeu a alcunha de “Cidade dos Loucos” durante longos anos. Esse título foi recebido em função dos sete hospitais psiquiátricos que abrigou. A justificativa técnica para a instalação de tantos manicômios no mesmo território deve-se à antiga crença, defendida por alguns médicos da época, de que o clima de montanha era salutar para os que carregavam doenças nervosas. Nesse clima, os loucos ficariam menos arredios e, supostamente, facilitariam o tratamento.


Outra versão conta que, ao perder a disputa política para Belo Horizonte de sediar a capital mineira, ganha, como “prêmio de consolação” os tantos hospitais psiquiátricos, dos quais ainda restam três na cidade.

O maior desses hospitais, hoje administrado pela Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais (FHEMIG), começou a funcionar em 1903, numa imensa área rural (cerca de oito milhões de m2), nas terras da Fazenda da Caveira, que pertencera a Joaquim Silvério dos Reis – o delator da Inconfidência Mineira. As instalações desse hospital abrigaram anteriormente uma clínica de repouso e clínica para os nervos e, posteriormente, um Sanatório para Tuberculosos. Era uma instituição para ricos. Com a falência do sanatório, o prédio foi ocupado por um hospital psiquiátrico, em que os pacientes se dividiam em pagantes e indigentes. 

A conhecida “laborterapia” era usada na época como parte do tratamento da loucura, na crença de que era necessário evitar a ociosidade, a qual era perniciosa ao espírito do louco. Por meio do trabalho, retirava-se o louco de sua condição de criatura inútil, possibilitando a canalização da sua agressividade e, conseqüentemente, a cura. Dessa forma, os pacientes pobres e considerados indigentes eram forçados a trabalhos monótonos e repetitivos, sem remuneração, e faziam trabalhos pesados na lavoura, na área do hospital, e na confecção de tijolos, bonecos, tapetes e outros produtos que eram vendidos ou consumidos internamente.

Fonte: Centro Cultural da Saúde

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Oficinas Terapêuticas: Casa Viva Vida

Este projeto é um relato de uma práxis de oficinas terapêuticas com os usuários do programa de saúde mental do Centro de Saúde de Cândido Mota, realizado em conjunto ao Departamento de Psicologia Clínica da UNESP- Assis. As atividades foram iniciadas em 1998 e destinadas aos usuários adultos do programa, sem crises agudas, com ou sem  história de internações psiquiátricas. As atividades de oficinas contêm um potencial terapêutico, que pode provocar em seus participantes, a circulação da palavra, troca de afetos e de experiência de vida, possibilitando a expressão e a comunicação. Nelas prioriza-se as potencialidades  e a reinserção social dos usuários. 


Como atividades iniciais, escolheu-se a "horta"  e a "escolinha" . Para esses usuários o cultivo da terra faz parte de suas experiências, além de ser  uma atividade de trabalho integradora. Por outro, "a  escolinha" por intermédio de atividades pedagógicas possibilita o resgate dos conhecimentos dos usuários, sua aplicação no seu cotidiano, bem como permite a reconexão com suas histórias de vida. A equipe desde o início é composta por uma psicóloga do Centro de Saúde, responsável pelo projeto, dois estagiários em 1998 (atualmente apenas um) e um técnico em agrícola da Secretaria da Agricultura ( no caso da horta). As atividades são semanais com duração de aproximada de 2 horas.

Na oficina da horta houve várias tentativas para conseguir espaço físico. Conseguiu-se um terreno junto ao SAAE do município. Inicialmente, foi indicado 20  usuários para a atividade. O grupo iniciou-se com 7 usuários, onde estabeleceu-se um contrato: as atividades eram definidas no início do trabalho  e avaliadas no final de sua execução . Apresentou-se um vídeo sobre horta, quando se discutiu o conhecimento do grupo, sua opinião sobre a atividade, dificuldades. Estas se referiram ao fato de terem que acordar cedo; medo de participar da atividade e, isso se caracterizar trabalho e consequentemente  impedir o recebimento do benefício da aposentadoria e não receber pelo trabalho  realizado uma vez que nas internações pelas quais passaram, os usuários relataram  que desenvolviam atividades nos hospitais, não recebiam nada por isso e, portanto sentiam "usados" pela instituição. Foi discutido e trabalhado esses temores e preocupações, principalmente no que se referia a aposentadoria e à exploração de sua força de trabalho. Ficou claro para todos que toda a produção ali colhida seria dividida entre os participantes da atividade. Houve a visita  ao local , preparação do solo, plantio e colheita. No início das atividades os usuários decepcionaram-se com o estado do terreno (a terra seca e apenas  grama). Existiram também dificuldades técnicas-operacionais, temor dos usuários em sair da instituição, emergência de crises, abandonos e dúvidas da equipe do serviço para integrar essa atividade com o trabalho terapêutico-medicamentoso.

Em 1999, as atividades da horta continuam, com encaminhamento pela equipe de outros usuários. No entanto permanece ainda as dificuldades de adesão dos usuários , maior envolvimento da equipe, e algumas dificuldades técnicas-operacionais. Porém, é possível constatar situações onde espaços de produção de vida naquele coletivo brotam e desabrocham no mesmo ritmo das próprias plantas ali cultivada.

Na  oficina da "escolinha" houve menos dificuldades iniciais do que as encontradas na horta. Elas são realizadas na própria instituição, em uma sala cedida por um outro departamento do Centro de Saúde. A participação dos usuários é estável, com maior adesão nas atividades. Os temas desenvolvidos nessa oficina são escolhidos pelos próprios participantes, abrangendo matemática, português, conhecimentos gerais, desenho e pintura e passeios pela cidade ( na horta, biblioteca pública, piquenique na piscina pública). O primeiro momento da atividade é  o aquecimento, a interação inicial, onde é retomada  o tema do dia que foi decidida na semana anterior. Depois é realizado a atividade onde é utilizado materiais gráficos, revistas, xerox de dinheiro, sucatas que os próprios participantes levam para dramatizarem situações cotidianas de compras e vendas e outras. No final todos avaliam a atividade do dia e escolhem o tema da próxima semana. É importante destacar que as atividades não são concluídas em apenas uma semana. Sua duração depende do ritmo da produção do coletivo. Essa oficina despertou interesse em algumas pessoas em voltar a estudar, interesse por leitura, filiação na biblioteca pública, interesse e valorização do  desenvolvimento profissional. Além disso, apontou para a necessidade de se criar mais outras duas  oficina: uma para os usuários analfabetos e semi-analfabetos e outra para que desenvolvam outras formas de expressão criativa. Existiram dificuldades técnicas em estabelecer o tipo de usuário que poderiam participar da atividade, assim como trabalhar com as singularidades diversas.

A prática de reabilitação e reinserção social é bastante complexa e implica no "desmonte" de uma prática instituída de tratamento norteado na restrição dos espaços sociais ou mesmo a exclusão social dos usuários da saúde mental e na medicalização e a "psicoterapeutização" dos tratamentos em instituições de saúde. A saída do usuário da instituição Centro de Saúde também provoca dificuldades pois significa reiniciar e inventar novas formas de contato com a sociedade e, portanto adquirir seu poder contratual. Antes o essencial era a saída do hospital e a volta à casa, agora  tem-se novas possibilidades, momentos de criação, ação, desenvolvimentos, tomadas de decisões, novos relacionamentos, amizades e responsabilidade. Enfim, trocas de mensagens afetivas, sociais e de bens materiais. É a ruptura do processo de "negatividade" em que a doença os colocou e a construção do processo de vida enquanto o viver com a saúde interior e com a capacidade de ter experiências culturais diversas.

Apesar das atividades das oficinas estarem ainda restrito a um pequeno número de usuários elas apontam sua viabilidade e importância como tratamento na área de saúde mental enquanto uma prática substitutiva que supõe a ruptura das práticas   psicológicas tradicionais. Esta importância é maior ainda quando estas atividades são desenvolvidas por uma equipe de saúde mental de um Centro de Saúde de uma cidade pequena ( com aproximadamente 29.000 habitantes), onde geralmente o tipo de serviço oferecido na área de saúde mental é de triagem de pacientes para internamentos, acompanhamento medicamentoso e  tratamento psicoterápico individual.

Para universidade é importante sua participação neste tipo projeto, uma vez que ela pode contribuir não apenas na melhor formação dos futuros psicólogos como na discussão e na construção de propostas que possam resolver os graves problemas não apenas de saúde, mas social das pessoas com intenso sofrimento psíquico. Isto porque o poder contratual desses usuários será transformado e ampliado na relação que se estabelece entre eles e os membros da equipe de profissionais formados pelas universidades. Além disso, a universidade em sua função de pesquisa  e de extensão deve contribuir para o rompimento do modelo manicomial, desenvolvendo projetos e ações substitutivas que promovam a qualidade de vida dos cidadãos.

Fonte: Cristina Amélia Luzio - departamento de psicologia clínica da Unesp

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A oficina de salão de beleza

Essa oficina consiste na apropriação de um "salão de beleza" montado dentro da instituição, na enfermaria feminina, com material de doações. Nela, os estagiários realizam o cuidado da aparência das pacientes: fazem suas unhas, lavam e penteiam seu cabelo, etc. Em geral, as pacientes gostam desse universo feminino e identificam-se com ele, com batons, esmaltes, espelhos, escovas e secadores de cabelo, maquiagem...

A atividade do salão de beleza faz com que o coordenador tenha uma função próxima à de cuidador, já que deve estar aberto ao contato corporal com a paciente. Tem um sentido estético, de higienização, de convívio, de fazer borda na corporalidade do psicótico, tão maltratada na psicose. Tanto pode ser um momento de prazer e bem-estar com o corpo quanto suscitar angústia e dificultar o manejo com a paciente. A concretude do corpo, sua deflagração de realidade, sua marca inscrita no simbólico não se constituem na psicose. O sujeito objetifica seu corpo, que, para ele, passa a ser lugar de inscrição do desejo do outro, nesse imperativo de gozo próprio da psicose.

Nessa deficiência, imprecisão de limite entre o próprio corpo e o corpo do outro, através da oficina, a paciente pode experimentar a sensação corporal como um elemento constitutivo de sua imagem corporal, identificadora, que limita, contém, contorna, separa. No lugar de serem cuidadas, as pacientes passam a se cuidar e a cuidar umas das outras, estimuladas pelo ambiente do salão de beleza. 

Não devemos, enquanto oficineiros, lidar com a "corporalidade" do psicótico desavisadamente. A atenção e o conhecimento da psicose são indispensáveis. À medida que trabalhamos com psicóticos, vemos que a loucura não é só sofrimento: é uma solução, um modo de existência próprio, que faz suplência ao insuportável. Por isso, a relação afetiva que o psicótico estabelece com o outro é desestabilizada, imprevisível, despolarizada, apaixonada. Assim, ao mesmo tempo em que se mostra dotado de uma afeição quase pueril, pode fazer-se hostil. Ao passo que nos despimos de nossos preconceitos, que, com a experiência, desmitificamos a psicose, vamos aperfeiçoando a forma de manejo com esses pacientes. È justamente aqui que se situa o incompreendido, o intratável da psicose, é no ponto em que o enigma se faz na falta de sentido, que a nossa lógica não alcança. Fica-nos claro que é o medo inconsciente da nossa própria "loucura" que nos ameaça. 

Aprendemos, com a loucura alheia, a precariedade de nossos pensamentos, a transitoriedade de nossas percepções e identidades, a intensidade como experiência e a vivência de ruína.

Mais que respostas, essa experiência suscita várias perguntas: como legitimarmos a experiência das oficinas para que realmente se constituam em espaço de cidadania para os sujeitos? Qual a postura ética do coordenador das oficinas? 

Fonte:  As oficinas na saúde mental: relato de uma experiência na internação - Teresa Cristina Paulino de Mendonça (PUC-MG)

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O Serviço Social e as Residências Terapêuticas


Primeiramente, o trabalho do assistente social, juntamente com uma equipe (psicólogos e cuidadores sociais), é introduzir os moradores no social. No que é uma casa, no que são as ruas, os bairros, a cidade. Padaria, mercado, cinema, teatro, comprar roupas, relógios, almoçar fora. Todas essas atividades, que são tão corriqueiras, precisam ser construídas, mais ainda, precisam de tempo para isso. Tempo de cada um, tempo de trabalho. O simples fato de um morador pedir algo – o processo de sair e comprar cada coisa que se pede -, precisa de um tempo para ser construído. Nesse processo, ocorrem empecilhos, combinações que não se cumprem, até acontecer a saída.
O segundo passo é construir uma casa. Construir com os moradores novas significações que permitam estar na cidade. Esse movimento produz novas histórias e relembra antigas. Nesse sentido, é preciso que se esteja com eles nesses espaços reconhecendo histórias e lembranças, mediando contato, para que assim possam estabelecer outros laços.
Entre as áreas de Saúde mental e Assistência Social – no que diz respeito à gestão de políticas públicas -, surge uma tensão formadora de trabalho que convoca construção permanente de rede, para além dos limites institucionais.

As residências terapêuticas são um espaço de ação social onde o sujeito cria relações significativas com o meio nas interações cotidianas do seu universo de referências individuais. São para seus moradores, dispositivos de produção de subjetividade. Deste modo, com a mudança para o tipo de dispositivo residencial os novos moradores produzem uma releitura de suas experiências passadas, iniciando um processo de reconstrução e atualização da identidade. Esta reorganização pessoal é fundamental para a construção subjetiva do novo espaço de moradia, pois possibilita aos indivíduos moldarem a sua relação com o ambiente, além de experimentarem o seu campo de manobra no território.
            O trabalho necessário a ambas equipes envolvidas (CAPS e RT) é acompanhar como cada um apropria-se de seu endereço, espaços da casa e da rua, criando uma atmosfera doméstica. Em alguns momentos, esse acompanhamento vai exigir mediadores, um investimento mais dirigido. A tarefa é lidar com sujeitos cujo sentimento de pertencimento é algo a ser construído, acompanhar como se dá a invenção de cada caso exige no cotidiano, estar atento aos detalhes e aos efeitos das intervenções (a divisão de tarefas, a presença de cuidadores e estagiários, a figura de uma coordenação).
            Portanto, segundo José Augusto Bisneto, “ao repor o usuário dos serviços psiquiátricos na sociedade, o Serviço Social não deve fazê-lo na perspectiva de ajustamento e adaptação. É necessário tentar criar condições para o mínimo de reapropriação por ele das relações sociais, na família, trabalho, gênero, raça etc. A noção de cidadania não é meramente formal. Benefícios, usufruto de aparatos de Estado e serviços sociais não podem ser apenas para cumprir dispositivos legais, mas para possibilitar a reapropriação social concreta no cotidiano. Não se deve lutar pelos direitos dos portadores de transtorno mental isolada e descontextualizadamente”.

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O cotidiano nas Residências Terapêuticas


Há algo específico no cotidiano de uma Residência Terapêutica que sempre nos remete a uma tensão: é casa ou não? É casa, pois o telefone toca, a campainha toca, a vizinha reclama, o gato da vizinha pula para a casa, a vizinha desvia água, e em aniversários os vizinhos estão presentes. Mas existe cuidador, coordenadora, estagiários. Os moradores não pagam conta de telefone, aluguel e nem luz. O que se sabe é a única coisa que não pode ser: manicômio. Talvez a base de todo trabalho nas RT’s residam nesse ponto, onde identificam-se os limites e impasses seja com os moradores ou com a equipe.
Quem está mais próxima do dia-a-dia da casa são os cuidadores. E este é um outro trabalho, também, cotidiano. A coordenação desse projeto precisa estar muito próxima deles – seja na casa ou em reuniões freqüentes. Acompanhar o trabalho junto aos cuidadores não é mais fácil do que o trabalho com os moradores. Eles também podem cair na rotina, no automático. O seu papel é essencial, pois visa inserir os moradores nos papéis desempenhados nos cuidados da casa, mediando essas tarefas e não fazendo por eles. A questão da rotina se faz presente nesse momento em duas vias. Uma rotina na casa é necessário. Rotina de um cotidiano, da dinâmica, do movimento entre eles. Qualquer casa tem a sua. Só que a rotina tem de ser dos moradores e não dos cuidadores. São detalhes extremamente importantes e é preciso que estejamos atentos a eles.
Além disso, na residência terapêutica, diferentemente de qualquer casa, o cotidiano inclui os cuidados com as medicações (existe na casa ou está faltando, se estão ingerindo ou estão jogando fora), os cuidados com a alimentação específica com as complicações clínicas. Cuidados, com a particularidade de cada um, sem ser em detrimento do grupo, numa dinâmica de convivência de casa.
A rede de cuidados também realiza-se através de dois CAPS. Apesar do constante contato com esse dispositivo, acredita-se que essencial separar o que é cuidado da casa e o que é tratamento no CAPS. Fazer essa diferença é mais uma tentativa de construir essa casa, o morar. É atribuído ao CAPS a missão de ocupar ou preencher o cotidiano dos usuários considerados graves, além de oferecer uma espécie de compensação traduzida em proteção, comida, benefícios, oferta de trabalho ou de atividades.
Os CAPS, desde sua criação, têm um compromisso com o destino com as pessoas que possuem sofrimento mental e vivem nos hospícios ou que ficam entregues a própria sorte, à margem dos dispositivos de tratamento. Constituem um passo fundamental para sustentar uma idéia de uma rede de serviços em saúde mental que funcione, de fato, como alternativa ao modelo manicomial, o que não significa dispensar o hospital psiquiátrico.

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